Anos de vento sujo – Patricia Lutz

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Descrição

A autora faz uso, como material narrativo, de uma rica e dolorosa experiência pessoal. Seu pai, Augusto Lutz (Harald Schultz, no livro) fez
uma brilhante carreira militar e foi, com Oscar Bonilla (Barella), um dos generais partidários de um imediato retorno a um regime civil e
democrático. Estava convencido de que não era bom para o Exército e para sua eficácia profissional um prolongado exercício do poder. Posição
que chocou-se com as aspirações de Augusto Pinochet (Aurélio Blanchet).
Tal asserção foi avalizada pelos relatos entregues recentemente pelo Exército do Paraguai e relacionados com a chamada “Operação
Condor”, uma aliança estratégica criada para combater, além das fronteiras, a esquerda no Cone Sul. Esses arquivos revelam que pelo menos
dez oficiais de alta patente deram um ultimato a Pinochet, exigindo amplas reformas após assumir o poder, entre elas a dissolução da polícia
política, Dina. De alguma maneira, todos eles foram afastados do poder ou simplesmente eliminados, através de uma cuidadosa tática de
limpeza interna.
Augusto Lutz e Oscar Bonilla foram dois dos grandes opositores ao aparato montado pelo diretor da Dina, Manuel Contreras (coronel
Carrasco). Juntos, buscaram opor-se aos abusos contra os direitos humanos, pagando um alto preço pelo seu desacato a um inferior
hierárquico, porém valorizado pelo regime. Lutz morreu no Hospital Militar, em razão de uma sucessão de irreparáveis e inexplicáveis
negligências, fechando-se as portas a qualquer investigação. Bonilla faleceu três meses mais tarde em um estranho acidente de helicóptero, e os
técnicos franceses que viajaram ao Chile para realizar uma perícia técnica morreram em condições similares.
O livro de Patricia Lutz relata em forma de romance a vida de seu pai, principalmente sua carreira, desde o ingresso na Escola Militar até
encontrar a morte num ambiente de pesadelo kafkiano. Trata-se sem dúvida de um romance-chave para a discussão da história do passado
recente do Chile. Os personagens do livro, no entanto, são fáceis de identificar com seus correlatos reais. A obra mostra, além disso, a
intimidade de uma família militar e algumas das manobras que foram feitas para se conseguirem promoções ou cargos interessantes, ou para se
obter informação de outros países. Contribui assim para ilustrar as características de um mundo que muitas vezes é percebido como críptico e
hermético a partir da sociedade civil.
Insistimos em que uma de suas contribuições mais importantes está em indicar o custo que tiveram tanto o golpe de 73 como o governo
de Pinochet para o próprio Exército, quando foram drenados valores militares tão importantes como a unidade, a lealdade ou a camaradagem.
Por último, este livro transmite uma visão a partir da proximidade familiar e da vida cotidiana de alguns personagens, como o próprio
Pinochet, que, ao serem elevados aos pedestais da história, passam a ser vistos como heróis ou monstros. Patricia Lutz os devolve à condição
humana.
DARÍO OSES*
*Nascido em 1949, Darío Oses é um dos mais sólidos e coerentes escritores da nova narrativa chilena. Jornalista, diplomado pela
Universidade do Chile, tem trabalhado como repórter, cronista e crítico literário, redator publicitário, além de ter exercido função docente na
Faculdade de Belas Artes. Atualmente é diretor da Biblioteca Central da Universidade do Chile

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