Libra – Don DeLillo.
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Descrição
Naquele ano ele ia de metrô até os limites da cidade, 350 quilômetros de trilhos. Gostava de ficar de pé na frente do primeiro vagão, as mãos
espalmadas contra a vidraça. O trem varava a escuridão. As pessoas paradas nas plataformas das estações olhavam o vazio, com uma
expressão que vinham treinando há anos. Ele imaginava vagamente, quando passava chispando, quem seriam elas na verdade. Sentia o corpo
flutuar nos trechos de maior velocidade. Às vezes iam tão rápido que julgava estarem à beira do descontrole. O barulho atingia um nível de dor
que ele absorvia como um teste pessoal. Mais uma curva louca. Era tanto ferro no som daquelas curvas que ele quase sentia o gosto delas,
como um brinquedo que se põe na boca quando criança.
Operários usavam lanternas ao longo dos trilhos vizinhos. Ele ficava atento para ver os ratos de esgoto. Um décimo de segundo era tudo que
se tinha para ver uma coisa completa. Então vinham as estações expressas, o ranger dos freios, pessoas amontoadas como refugiados.
Entravam oscilando pelas portas, trombavam nas ombreiras de borracha, avançavam centímetro a centímetro, instalavam-se rapidamente e
ficavam olhando além das cabeças mais próximas o treinado esquecimento.
Aquilo nada tinha a ver com ele. Viajava só por viajar.
Porto-riquenhos, um quarenta e nove avos. Negros, um vinte e cinco avos. Na rua 42, após uma curva de estrépito máximo, vinha a massa
mais densa, maletas, sacolas de compras, pastas escolares, cegos, batedores de carteira, bêbados. Ele não estranhava que o metrô tivesse
coisas mais atraentes que a cidade lá em cima. Nada havia de importante lá em cima, na tarde imensa, que ele não pudesse encontrar em forma
mais pura naqueles túneis por baixo das ruas.






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