Kitty aos 22_ divertimento – Reinaldo Santos Neves.

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Descrição

A origem deste romance está num sonho. Sonhei com uma jovem de seus vinte anos: ela sai do carro do namorado – com quem, bem o sei,
acaba de se desiludir — e afasta-se na penumbra. É madrugada. O local é ermo e silencioso. Há uma colina com algumas casas e um grande
número de árvores que me parecem casuarinas ou eucaliptos. Uma ladeira asfaltada leva ao alto da colina. A moça caminha através desse
cenário. De repente pára e põe-se, entre surpresa e deslumbrada, a escutar alguma coisa. Eu sei o que ela está escutando: é o silêncio. A moça
está fazendo a descoberta do silêncio.
Esse foi o sonho, e agora vejo o papel que faço nele; é o papel de narrador. A moça é minha personagem. Vem-me ao sonho para que eu
tome ciência dela e a tire do sonho e a ponha onde deve ser posta: numa história.
Silêncio é para mim um fator de interesse pessoal. Concordo com Fellini em que uma das coisas de que este mundo precisa é um pouco mais
de silêncio. Comecei, portanto, a pensar nas possibilidades de aproveitar o sonho literariamente. Ora, o que o sonho me deu foi uma única cena
de um possível romance. Tive de me virar para descobrir o resto da história e poder contá-la. Fiz, parece-me, o que costumam fazer os
paleontólogos que reconstituem o esqueleto de um animal a partir de um único osso: reconstituí o romance a partir de uma única cena.
Como procedi? A personagem era e havia que ser jovem; o mundo era e havia que ser o mundo dos jovens de hoje. Então procureios onde
estavam ao meu alcance: nos blogs disponíveis na Internet. Ali fiz meu trabalho de pesquisa e dali extraí informações sobre a minha personagem
e sobre o seu mundo: material suficiente para criar o cenário do romance e imaginar a mentalidade dos personagens e para produzir a
linguagem narrativa. Batizei a personagem de Kitty — boa parte dos jovens de hoje usa diminutivos em inglês à guisa de apelidos. Daí, Kitty. A
gatinha Hello Kitty, portanto, não é causa mas conseqüência dessa escolha.
O romance — a que dei o título provisório de Livro do silêncio e o tratamento meio que de fábula — deixou-se escrever sem me criar maiores
embaraços. Tendo começado o trabalho em julho de 2005, em outubro já foi possível pôr nas mãos de pessoas do círculo familiar e de alguns
amigos uma primeira versão, com outro título provisório — Kitty: Hello, Goodbye. Depois foi só incorporar sugestões feitas por esses leitores
prévios e fazer mais duas leituras “autorais” e o livro estava pronto para sair à rua: primeiro romance que publico desde Sueli, ou seja, desde
1989.

 

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